CAROS AMIGOS: Coleção “A Ditadura Militar no Brasil” em versão digital

A proposta da coleção “A Ditadura Militar no Brasil” é mostrar episódios e personagens da história do Brasil a partir do nosso ponto de vista. Que difere substancialmente da encontrada em trabalhos semelhantes publicados pelas editoras grandes de revistas e jornais, mesmo porque elas defenderam e defendem a elite econômico-financeira que sempre dominou o poder e não admite qualquer projeto de reforma institucional que possa ameaçar seus privilégios. Como aconteceu no episódio que vamos contar nesta série de fascículos, como aconteceu em episódios anteriores e como pode acontecer cada vez que um governo propuser mudanças estruturais ao país.

No caso, as editoras grandes apoiaram vigorosamente o golpe de Estado que inaugurou o longo período chamado “anos de chumbo”, a ditadura militar que durou 21 anos, de 1964 a 1985. (Revista Caros Amigos)

Acesse as revistas nos links abaixo:

A Ditadura Militar No Brasil - Fasc nº 01
Volume 01 – A noite do Golpe
A Ditadura Militar No Brasil - Fasc nº 02
Volume 02 – Antecedentes do
golpe, suicídio de Getúlio
A Ditadura Militar No Brasil - Fasc nº 03
Volume 03 – Jango,
ascensão e Queda
A Ditadura Militar No Brasil - Fasc nº 04
Volume 04 – Governo
Castelo Branco
A Ditadura Militar No Brasil - Fasc nº 05
Volume 05 – Governo
Costa e Silva
A Ditadura Militar No Brasil - Fasc nº 06
Volume 06 – Governo Médici I
(1969-1974) O Milagre
A Ditadura Militar No Brasil - Fasc nº 07
Volume 07 – Governo Médici II
(1969-1974) A Tortura

ANPUH: Eric Hobsbawm: um dos maiores intelectuais do século XX

Resposta à revista VEJA:

Na última segunda-feira, dia 1 de outubro, faleceu o historiador inglês Eric Hobsbawm.

Intelectual marxista, foi responsável por vasta obra a respeito da formação do capitalismo, do nascimento da classe operária, das culturas do mundo contemporâneo, bem como das perspectivas para o pensamento de esquerda no século XXI. Hobsbawm, com uma obra dotada de rigor, criatividade e profundo conhecimento empírico dos temas que tratava, formou gerações de intelectuais.

Ao lado de E. P. Thompson e Christopher Hill liderou a geração de historiadores marxistas ingleses que superaram o doutrinarismo e a ortodoxia dominantes quando do apogeu do stalinismo. Deu voz aos homens e mulheres que sequer sabiam escrever. Que sequer imaginavam que, em suas greves, motins ou mesmo festas que organizavam, estavam a fazer História.

Entendeu assim, o cotidiano e as estratégias de vida daqueles milhares que viveram as agruras do desenvolvimento capitalista. Mas Hobsbawm não foi apenas um “acadêmico”, no sentido de reduzir sua ação aos limites da sala de aula ou da pesquisa documental. Fiel à tradição do “intelectual” como divulgador de opiniões, desde Émile Zola, Hobsbawm defendeu teses, assinou manifestos e escolheu um lado. Empenhou-se desta forma por um mundo que considerava mais justo, mais democrático e mais humano. Claro está que, autor de obra tão diversa, nem sempre se concordará com suas afirmações, suas teses ou perspectivas de futuro. Esse é o desiderato de todo homem formulador de ideias. Como disse Hegel, a importância de um homem deve ser medida pela importância por ele adquirida no tempo em que viveu. E não há duvidas que, eivado de contradições, Hobsbawm é um dos homens mais importantes do século XX.

Eis que, no entanto, a Revista Veja reduz o historiador à condição de “idiota moral” (cf. o texto “A imperdoável cegueira ideológica da Hobsbawm”, publicado em http://www.veja.abril.com.br). Trata-se de um julgamento barato e despropositado a respeito de um dos maiores intelectuais do século XX. Veja desconsidera a contradição que é inerente aos homens. E se esquece do compromisso de Hobsbawm com a democracia, inclusive quando da queda dos regimes soviéticos, de sua preocupação com a paz e com o pluralismo.

A Associação Nacional de História (ANPUH-Brasil) repudia veementemente o tratamento desrespeitoso, irresponsável e, sim, ideológico, deste cada vez mais desacreditado veículo de informação. O tratamento desrespeitoso é dado logo no início do texto “historiador esquerdista”, dito de forma pejorativa e completamente destituído de conteúdo. E é assim em toda a “análise” acerca do falecido historiador.

Nós, historiadores, sabemos que os homens são lembrados com suas contradições, seus erros e seus acertos. Seguramente Hobsbawm será, inclusive, criticado por muitos de nós. E defendido por outros tantos. E ainda existirão aqueles que o verão como exemplo de um tempo dotado de ambiguidades, de certezas e dúvidas que se entrelaçam. Como historiador e como cidadão do mundo.

Talvez Veja, tão empobrecida em sua análise, imagine o mundo separado em coerências absolutas: o bem e o mal. E se assim for, poderá ser ela, Veja, lembrada como de fato é: medíocre, pequena e mal intencionada.

São Paulo, 05 de outubro de 2012

Diretoria da Associação Nacional de História
ANPUH – Brasil
Gestão 2011-2013

Morre aos 95 anos em Londres o historiador Eric Hobsbawm

“A destruição do passado – ou melhor, dos mecanismos sociais que vinculam nossa experiência pessoal à das gerações passadas – é um dos fenômenos mais característicos e lúgubres do final do século XX. Quase todos os jovens de hoje crescem numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em que vivem. Por isso os historiadores, cujo ofício é lembrar o que outros esquecem, tornam-se mais importantes que nunca…”

Uma perda inestimável. É isso que representa o fim da trajetória de um indivíduo que contribuiu imensamente para a compreensão de nosso mundo, em nosso tempo. Hobsbawm que acompanhou grande parte dos grandes acontecimentos do século XX, conseguiu, de modo singular e analisar esses fatos de modo brilhante faleceu hoje.

Hobsbawm até o fim de sua vida continuava compreendendo a teoria Marxista como chave para compreensão do mundo em que vivemos. Em sua última obra “Como mudar o mundo: Marx e o Marxismo”, este grande historiador apresenta ao mundo que, apesar da queda da URSS, simbolizada pela queda do muro de Berlim, o marxismo ainda se mostra atual e capaz de transformar o mundo.

Uma perda para a História. Mas que se eternizou por conta de suas obras, definitivas para o mundo contemporâneo.

“Acredito ser o marxismo uma abordagem muito melhor da história porque está mais visivelmente atento do que as outras abordagens àquilo que os seres humanos podem fazer enquanto sujeitos e produtores da história, bem como àquilo que, enquanto objetos, não podem.”

O historiador britânico Eric Hobsbawm morreu nesta segunda-feira (1º) aos 95 anos no hospital Royal Free de Londres, informou sua família. Ele sofria de pneumonia.

Fonte: G1

Sua filha, Julia Hobsbawm, disse que “Ele morreu de pneumonia nas primeiras horas da manhã em Londres”. “Ele fará falta não apenas para sua esposa há 50 anos, Marlene, e seus três filhos, sete netos e um bisneto, mas também por seus milhares de leitores e estudantes ao redor do mundo”, disse. “Até o fim, ele estava se esforçando ao máximo, ele estava se atualizando, havia uma pilha de jornais em sua cama”, completou a filha.

O intelectual marxista é considerado um dos maiores historiadores do século XX e escreveu “A era das revoluções”, “A era do capital”, “A era dos impérios”, “Era dos extremos”, entre outras obras. Ele também era um entusiasta e crítico do jazz, escrevendo resenhas para jornais sobre o gênero musical e publicando o livro “História social do jazz”.

Trajetória
Eric John Ernest Hobsbawm nasceu de uma família judia em Alexandria, Egito, em 9 de junho de 1917. Seu pai era britânico, descendente de artesãos da Polônia e Rússia, e a família de sua mãe era da classe média austríaca.

Hobsbawn cresceu em Viena, Áustria, e em Berlim, Alemanha.

Quando era estudante na Alemanha, ele informou o diretor da escola que ele era comunista e argumentou que o país precisava de uma revolução.

“Ele me fez umas perguntas e disse ‘Você claramente não faz ideia do que está falando. Faça o favor de ir à biblioteca e veja o que consegue descobrir'”, disse em uma entrevista à BBC em 2012. “E então eu descobri o Manifesto Comunista [de Karl Marx] e foi isso”, relatou, indicando o começo de sua formação marxista.

Em 1933, quando Hitler começava a subir no poder na Alemanha, Hobsbawm foi para Londres, Inglaterra, onde obteve cidadania britânica.

O historiador se filiou ao Partido Comunista da Inglaterra em 1936 e continuou membro da legenda mesmo após o ataque das forças soviéticas à Hungria em 1956 e as reformas liberais de Praga em 1968, embora tenha criticado os dois eventos. O ex-líder do Partido Neil Kinnock chegou a chamar Hobsbawm de “meu marxista predileto”

Anos depois ele disse que “nunca havia tentado diminuir as coisas terríveis que haviam acontecido na Rússia”, mas que acreditava que no início do projeto comunista um novo mundo estava nascendo.

Durante a II Guerra Mundial, Hobsbawm foi alocado a uma unidade de engenharia que a presentou a ele, pela primeira vez, a classe proletária. “Eu não sabia muito sobre a classe proletária britânica, apesar de ser comunista. Mas, vivendo e trabalhando com eles, pensei que eram boas pessoas”, disse à BBC em 1995.

O historiador aprovou neles a “solidariedade, e um sentimento muito forte de classe, um sentimento de pertencer junto, de não querer que ninguém os derrubasse”.

Vida acadêmica
Hobsbawm estudou no King’s College de Londres e começou a dar aula na Universidade de Birkbeck em 1947, mais tarde tornando-se reitor da instituição. Ele também passou temporadas como professor convidado nos Estados Unidos e lecionou na Universidade de Stanford, no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e na Universidade de Cornel.

Em 1998, ele recebeu o título de Companhia de Honra. O prêmio, raramente concedido a historiadores, o colocou ao lado de ilustres como Stephen Hawking, Doris Lessing and Sir Ian McKellan.

Seu colega historiador A.J.P. Taylor, morto em 1990, disse que o trabalho de Hobsbawm se destacava pelas explicações precisas dos acontecimentos pelo interesse em pessoas comuns.

“A maior parte dos historiadores, por uma espécie de mal da profissão, se interessa somente pelas classes mais altas e pressupõem que eles mesmos fariam parte destes privilegiados se tivessem vivido um século ou dois atrás – uma possibilidade muito remota”, escreveu Taylor. “A lealdade do Sr. Hobsbawm está firmemente do outro lado das barricadas”, disse.

Eric Hobsbawm durante uma feira do livro em Leipzig, em 1999 (Foto: Eckehard Schulz/AP)

Obras
O primeiro livro de Hobsbawm, “Rebeldes primitivos”, publicado em 1959, é um estudo dos que ele chamava de “agitadores sociais pré-políticos”, incluindo ligas de camponeses sicilianos e gangues e bandidos metropolitanos, um exemplo de seu interesse pela história das organizações da classe trabalhadora.

Em 1962, ele publicou o primeiro de três volumes sobre o que chamou de “o longo século XIX”, cobrindo o período entre 1789, ano da Revolução Francesa, e 1914, começo da I Guerra Mundial. O volume seguinte, “Era dos extremos”, retratou a história até 1991, o fim da União Soviética, foi traduzido para quase 40 línguas e recebeu muitos prêmios internacionais.

No mesmo ano, ele escreveu uma obra sobre jazz e começou a colaborar como crítico para a revista “New Statesman” usando o pseudônimo Francis Newton, em homenagem ao trompetista comunista de Billie Holiday.

Suas memórias, que foram best-seller, elencaram os momentos cruciais na história europeia moderna nos quais ele viveu.

Seu último livro é “Como mudar o mundo”, de 2011, e é um compilado de textos escritos desde a década de 1960 sobre Karl Marx e o marxismo.

De acordo com o jornal britânico “The Guardian”, ele tem um livro em revisão a ser publicado em 2013.

Ele veio ao Brasil em 2003 participar da primeira edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), evento do qual foi estrela.

O historiador britânico Eric Hobsbawm posa durante a primeira edição da Flip, em 2003; ele foi considerado a estrela daquela edição  (Foto: Divulgação)
O historiador britânico Eric Hobsbawm posa durante a primeira edição da Flip, em 2003; ele foi considerado a estrela daquela edição (Foto: Divulgação)

Folha de São Paulo: Justiça manda retificar a causa da morte de Herzog

24/09/2012 – Eduardo Geraque
Fonte: A Folha de S. Paulo

A certidão de óbito do jornalista Vladimir Herzog (1937-1975) será alterada. Por decisão judicial, divulgada ontem, a causa do óbito terá uma nova explicação.

Em vez de suicídio, estará escrito: “A morte decorreu de lesões e maus-tratos sofridos em dependência do II-Exército – SP (DOI-Codi)”.

O juiz Márcio Bonilha Filho, da 2ª Vara de Registros Públicos de São Paulo, acatou um pedido da viúva de Herzog, Clarice, e da Comissão da Verdade.

É o primeiro resultado prático obtido pelo grupo formado pela presidente Dilma Rousseff, que se reuniu ontem, em São Paulo.

Instituto Vladimir Herzog
Vladimir Herzog na redação, em 1966
Vladimir Herzog na redação, em 1966

O juiz, em sua sentença, afirma que não acatar o pedido de mudança é “prolongar o martírio da viúva e dos familiares e afrontar a consciência pública nacional”.

No dia 25 de outubro de 1975, Vladimir Herzog morreu após uma sessão de tortura. Ele compareceu de forma espontânea à sede do DOI-Codi, na rua Tutóia, no bairro do Paraíso (zona sul).

Os agentes repressores, depois da morte do jornalista, armaram a cena para simular um suicídio. Uma nota oficial do Exército, emitida logo após a morte, confirmou, na época, que o próprio Herzog havia dado fim a sua vida.

O episódio virou um símbolo na luta contra a ditadura. Em 31 de outubro de 1975, 8.000 pessoas se reuniram na praça da Sé, centro de São Paulo, em um ato ecumênico para lembrar a morte.

OUTROS CASOS

Para a Comissão da Verdade, a mudança oficial da certidão de óbito tem um peso simbólico muito importante.

O objetivo é fazer o mesmo para outras dezenas de casos, desde que o pedido parta da família dos desaparecidos e mortos políticos. O problema, muitas vezes, é obter provas jurídicas que levem a Justiça a tomar a mesma decisão dada para o caso Herzog.

O colegiado tem sete membros, que foram escolhidos pelo governo federal em maio. O grupo tem poder para investigar as violações aos direitos humanos praticadas entre 1946 e 1988.

As investigações atingem apenas atos de agentes do Estado, ou que estavam a serviço dele –o que gerou reclamação dos militares.

Para José Carlos Dias, ex-ministro e integrante da comissão, é preciso “fechar a biografia das vítimas e registrar como o aparelho repressivo estatal agiu”.

A “Folha de São Paulo”, o mesmo periódico que tanto contribuiu com a manutenção da ditadura e do Estado de Terror no Brasil, divulgou esta notícia hoje. O mesmo jornal que questiona a violência de Estado daquele período e que ainda hoje defende interesses repugnantes. Mas hoje em suas sórdidas páginas uma boa notícia. Demos mais um passo em direção à justiça.

Foi decretada a revisão da causa da morte do Jornalista Vladimir Herzog, ex-diretor da TV Cultura condenado à tortura e morte nos porões da ditadura.

O novo texto dirá “A morte decorreu de lesões e maus-tratos sofridos em dependência do II-Exército – SP (DOI-Codi)“, um eufemismo de sua verdade, mais um eufemismo em nossa (triste) história. O reconhecimento da real causa da morte de Vladimir Herzog é um avanço, ainda simbólico, mas um avanço. Esse reconhecimento é uma parte da justiça. Ainda nos resta poder conhecer e punir todos torturadores e assassinos da Ditadura.

Henfil, um dos maiores cartunistas do Brasil, há mais de 20 anos fez uma http://www.revistadehistoria.com.br/uploads/docs/images/images/Vlado!%20Saiu%20a%20Anistia%20ok.jpg
charge que parece se tornar mais verdadeira a partir de hoje.

Vlado foi torturado e assassinado.

Não esqueceremos!

Viva Herzog!

A luta continua!

Carta Capital: Chance fatal. Ou não?

Fonte: CartaCapital Edição 709
por Rodrigo Martins em 03 de agosto de 2012

Foto: Isadora Pamplona

Vítima. Maria Amélia Teles recebeu a visita dos filhos pequenos na sala de tortura.

Vinte e sete anos após o fim da ditadura, o Judiciário brasileiro ainda não condenou em caráter definitivo qualquer agente do Estado envolvido em torturas, sequestros e assassinatos durante o regime (1964-1985), encerrado com o saldo de 475 mortos e desaparecidos políticos. Os responsáveis por esses crimes, e também por um incalculável número de pessoas seviciadas e presas arbitrariamente, permanecem impunes. Não se tem notícia de um único e escasso torturador que tenha amargado uma passagem na cadeia ou ressarcido os cofres públicos pelas reparações pagas pelo governo às vítimas. E nem se fale de seus mandantes. As raras sentenças condenatórias em primeira instância foram sempre reformadas nas cortes superiores. A impunidade prevaleceu, enquanto o Brasil era condenado em tribunais internacionais pela sua omissão em relação a graves violações dos direitos humanos. Mas, ainda que tardiamente, o Tribunal de Justiça de São Paulo tem uma excelente oportunidade para começar a mudar esse cenário de deliberada, imperdoável amnésia.

Na terça-feira 7, os desembargadores da 1ª Câmara de Direito Privado vão analisar uma apelação interposta pelo coronel reformado do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra, ex-comandante do DOI-Codi paulista, órgão de repressão da ditadura. Há quatro anos, o juiz Gustavo Santini Teodoro, da 23ª Vara Cível, responsabilizou Ustra pelas sistemáticas torturas sofridas por três integrantes da família Teles entre 1972 e 1973. Trata-se de uma ação declaratória, sem pedido de indenização. “Quero apenas que a Justiça reconheça Ustra como torturador”, afirma Maria Amélia de Almeida Teles, uma das autoras da ação.

A expectativa é grande. Esta será a segunda audiência marcada pelo Tribunal de Justiça para avaliar o caso. Na primeira, realizada em maio, o jurista Fábio Konder Comparato fez a sustentação oral em nome da família Teles, mas o advogado do réu não compareceu. Surpreendentemente, o desembargador Rui Cascaldi, relator do processo, declarou que tinha redigido seu voto há algum tempo e, após ouvir os argumentos do jurista, adiou a sessão de julgamento. “Certamente, ele já havia decidido pela absolvição de Ustra. Resta saber se vai mudar o voto ou, ao contrário, deve fundamentar melhor a sua sentença”, diz Maria Amélia, um tanto apreensiva com as idas e vindas do processo que move desde 2005. “Nunca uma Corte superior manteve a condenação contra um torturador. Se isso ocorrer, será um dia histórico.”

Conversa Afiada: Justiça condena Ustra

A família Merlino conquista uma vitória nos tribunais. Uma vitória parcial, uma vez que ainda há limites para julgamentos de torturadores. Mas ainda assim, uma vitória!

Fonte: Conversa Afiada

 

O Conversa Afiada reproduz e-mail do professor Fábio Comparato:

Caro Paulo Henrique:

Venho informar que a Juiza de Direito da 20ª Vara Cível do foro central de São Paulo julgou procedente a ação de danos morais, movida pelos familiares de Luiz Eduardo da Rocha Merlino contra o Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, por tortura seguida de morte do jornalista nas dependências do DOI-CODI de São Paulo em 1972. O réu foi condenado a pagar às autoras a indenização de R$50.000,00.

Abraço,

Fábio Konder Comparato

Juiz muda atestado de óbito de perseguido político

O  juiz Guilherme Madeira Dezem, da 2.ª Vara de Registros Públicos, em São Paulo, determinou a retificação, no atestado de óbito, do local e da causa da morte de um militante de esquerda assassinado durante a ditadura militar. Trata-se de uma decisão inédita, segundo organizações de direitos humanos.

Fonte: Agência Estado
http://blogs.estadao.com.br/roldao-arruda/categoria/direitos-humanos/

No documento retificado, onde se lê que o economista João Batista Franco Drumond morreu no dia 16 de dezembro de 1976 na esquina da Avenida Nove de Julho com a a Rua Paim, passará a constar: “Falecido no dia 16 de dezembro nas dependências do DOI-Codi do 2.º Exército, em São Paulo”. Em seguida, onde se anotou que a causa da morte foi “traumatismo craniano encefálico”, ficará escrito que decorreu de “torturas físicas”.

A sentença, segundo o texto do juiz, segue orientação da Corte Interamericana de Direitos Humanos. Ele cita particularmente a determinação – de 2010 – para que o Brasil adote medidas destinadas a cumprir o direito que as famílias de mortos e desaparecidos têm à memória e à verdade.

Trata-se de uma decisão de primeira instância, que ainda pode ser modificada pelo Tribunal de Justiça de São Paulo. O pedido de mudança foi feito pela viúva de Drumond, a senhora Maria Ester, de 65 anos. Segundo seu advogado, Egmar José de Oliveira, ela espera por isso desde a morte do marido, 35 anos atrás. “Faz parte de um longo esforço para restituir-lhea dignidade”, conta ele.

Tortura e morte

Drumond tinha 34 anos e era militante do PC do B. Foi preso no dia 15 de dezembro de 1976, no episódio que ficou conhecido como massacre da Lapa – uma operação que, sob o patrocínio do 2.º Exército, resultou no desmantelamento da cúpula do partido. Conduzido para as dependências do DOI-Codi, ele enfrentou seguidas sessões de tortura, segundo depoimentos de outros presos políticos, até a sua morte, no dia seguinte.

Quando o pai de Drumond chegou para identificar o corpo e providenciar o funeral, as autoridades lhe informaram que o filho morrera atropelado, durante uma tentativa de fuga. “Ele recebeu ordem, por escrito, para que isso constasse no atestado de óbito”, conta o advogado.

Sentindo-se ameaçadas, a mulher e as duas filhas de Drumond mudaram para a França – onde moram até hoje. Elas já tinham conseguido, junto à Comissão de Mortos e Desaparecidos, o reconhecimento de que o marido morrera quando se encontrava sob a custódia das autoridades militares.

Mas a senhora Maria Ester queria ir além, queria o reconhecimento final, na certidão de óbito do marido. Quando soube da decisão do juiz, assinada no final da semana passada e divulgada na segunda-feira, ela comemorou e chamou-o de corajoso.

Jurisprudência

“Mesmo sendo uma decisão de primeira instância, é altamente significativa. Trata-se de uma reação inédita do Judiciário, que sempre foi omisso no trato das questões da ditadura militar”, diz o advogado, que também é vice-presidente da Comissão de Mortos e Desaparecidos. “É uma a peça a mais no esforço que se faz no País para se restabelecer a memória e a verdade. Tomara que seja o início de uma jurisprudência que ajude as famílias a restabelecerem plenamente os fatos ocorridos durante a ditadura.”

O ex-preso político Ivan Seixas, da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos, também elogiou a sentença.  “Ela confirma as denúncias de morte sob tortura. É mais um passo para que o Brasil possa conhecer a verdade daquele período”, afirma.