Reportagem da Folha sobre a demolição de antigos prédios industriais

Avanço dos prédios poupa apenas antigas chaminés

Valorização de terrenos leva ao chão antigos parques industriais paulistanos
Especialistas criticam falta de cuidado com o que consideram um patrimônio que conta a história da metrópole

Folha de São Paulo – Vanessa Correa

Manter de pé apenas as chaminés de antigas fábricas de São Paulo tem sido a estratégia das construtoras para conseguir a liberação dos órgãos do patrimônio histórico e, assim, ocupar os grandes terrenos do município com condomínios residenciais.
Na maioria dos casos, os galpões ao redor das chaminés, também com seu valor histórico, acabam no chão.
Especialista em patrimônio criticam a solução e veem na valorização dos antigos bairros industriais, como Mooca, na zona leste, e Lapa, na zona oeste, uma ameaça à preservação histórica do processo de industrialização.
Um empreendimento residencial de classe média, o Luzes da Mooca, cercará, com quatro torres de apartamentos, uma chaminé da antiga fábrica de açúcar União. Os galpões foram demolidos.
Na mesma rua, a Borges de Figueiredo, os galpões das antigas indústrias Duchen, Francisco Matarazzo e Fiat Lux foram parcialmente demolidos. A construtora Agre quer prédios residenciais ali.
Em dezembro, a Agre apresentou ao Conpresp, o órgão do patrimônio municipal, um projeto para construir um condomínio no local, com a preservação só da chaminé.
Enquanto o Departamento do Patrimônio Histórico, que emite pareceres técnicos para o Conpresp, elaborava o texto a fim de pedir o tombamento, parte dos galpões foi demolida. Rapidamente o DPH abriu processo de tombamento, o que garantiu a proteção da parte que restou.
O DPH, então, concluiu o estudo e pediu o tombamento das estruturas com face para a linha de trem da CPTM que passa atrás do terreno.
O pedido, pronto em 2007, nunca chegou, no entanto, a ser votado pelo Conpresp.
A Agre afirma que pretende preservar tudo o que o órgão municipal determinar.
O caso lembra o da Casa das Caldeiras, na avenida Francisco Matarazzo, na zona oeste, que foi demolida enquanto o Conpresp estudava o tombamento do imóvel, concluído em 1986.
Restaram duas chaminés e a casa de caldeiras. Os antigos galpões foram demolidos para dar lugar a prédios.
Para Nádia Somekh, arquiteta, professora do Mackenzie e conselheira do Conpresp, “preservar só um pedaço, como a chaminé, é um paliativo. É muito pouco.”
Segundo Angela Rosch Rodrigues, arquiteta e mestranda da FAU-USP, existe no país certa dificuldade de se reconhecer o valor cultural de bens recentes, como o patrimônio industrial.
Regina Monteiro, idealizadora da Lei Cidade Limpa e diretora de paisagem urbana da prefeitura, cita como opção para a preservação a reciclagem do uso, como ocorreu com o Sesc Pompeia, instalado em uma antiga indústria.
Também em outras cidades paulistas há casos de preservação só das chaminés.
Em São Caetano do Sul, a prefeitura já autorizou a demolição das antigas Indústrias Francisco Matarazzo. Há um pedido de tombamento apenas das chaminés.

 

 

ANÁLISE ANTIGAS FÁBRICAS DE SÃO PAULO

Valor do patrimônio ainda é subestimado
Carecemos de um inventário nacional que nos permita ver com clareza toda a nossa riqueza em termos de edifícios
O AUSENTE COMPROMISSO COM A CIDADE E A FRACA IMAGINAÇÃO ARQUITETÔNICA ESCOLHEM SOLUÇÕES COMO A DEMOLIÇÃO E O USO DE SÍMBOLOS VAZIOS, COMO AS CHAMINÉS SOLITÁRIAS

Cristina Meneguello – Especial para a Folha de São Paulo – ESPECIAL PARA A FOLHA

A constante ameaça de destruição que ronda galpões e antigas fábricas da Mooca é apenas uma das faces mais evidentes de um processo paulatino de destruição da memória industrial nas cidades brasileiras.
Enquanto em outros países europeus e latino-americanos este patrimônio tem sido preservado e requalificado em usos práticos muito diversos -e não apenas em museus-, no Brasil ainda existe uma grande dificuldade de percepção do valor histórico, arquitetônico, artístico, social, turístico e, principalmente, do valor econômico deste patrimônio.
Em termos nacionais, carecemos de um inventário que nos permita ver com clareza toda a nossa riqueza em termos de edifícios e galpões industriais, oficinas, matadouros, armazéns, linhas férreas e estações de trem, gasômetros, indústrias de mineração, de produção e de transformação de energia.
Muitos pesquisadores se debruçam sobre o tema, mas não existem políticas nacionais ou locais claras para a preservação do patrimônio industrial brasileiro.
O desmantelamento dos espaços, seja pela falta de critérios de valorização por parte dos órgãos oficiais, seja pela força da especulação imobiliária que foca sua atenção nestas rentáveis áreas hoje centrais, faz do patrimônio industrial um problema urbano em larga escala.
Há muito a preservação patrimonial afastou-se de um caráter nostálgico ou saudosista, conseguindo enxergar para estas regiões usos muito contemporâneos e vibrantes, inclusive em termos de desenvolvimento sustentável. Já as construtoras enxergam estas áreas como “de oportunidade”. De fato, elas o são. Porém, o ausente compromisso com a cidade e a fraca imaginação arquitetônica escolhem soluções como a demolição e o uso de símbolos vazios -como as chaminés solitárias.
As torres residenciais substituem outros possíveis futuros urbanos, que poderiam trazer o restauro das estruturas industriais para habitação e comércio; um parque ecológico às margens da ferrovia ou o uso das estruturas existentes para a rede de transportes. Estas soluções iriam, inclusive, melhorar a qualidade de vida da população que já reside nas muitas torres residenciais da região. Em outras palavras, já passamos do momento de perceber a importância social e o potencial econômico do patrimônio industrial do Brasil.


CRISTINA MENEGUELLO é doutora em história, professora da Unicamp e membro fundador do Comitê Brasileiro de Preservação do Patrimônio Industrial

 

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