Expressão Popular: “O Marxismo de Che” e os 45 anos da morte de Ernesto Guevera

Há 45 anos, nesse mesmo Outubro, em 1967 morria Che Guevara.

Sua vocação revolucionária internacionalista o levou à Cuba, onde contribuiu diretamenta para a consolidação Revolução. Contudo, seu espírito audaz o fez ir também ao Congo e à Bolívia com o objetivo de libertar outros povos.

Capturado por forças reacionárias em Vallegrande, na Bolívia e assassinado em 8 de outubro de 1967. Seus inimigos, organizados, treinados e financiados pelo imperialismo norteamericano não esperaram muito para assassinar o herói e expor seu cadáver como um troféu.

Ao assassinarem um homem, criaram um mito. Um herói, que lutou pela unificação da América Latina sob a bandeira do socialismo.

Viva Che!

Até a vitória!

O MARXISMO DE CHE[1]
Michael Löwy[2]

Fonte: Expressão Popular

Che não foi apenas um heroico guerrilheiro, um lutador que entregou sua vida pela libertação dos povos da América Latina, um dirigente revolucionário que fez algo sem precedentes na história; deixou todos seus cargos para retomar o fuzil contra o imperialismo. Ele foi também um pensador, um homem de reflexão que nunca deixou de ler e escrever, aproveitando qualquer pausa entra duas batalhas para ter à mão caneta e papel. O seu pensamento faz dele um dos mais importantes renovadores do marxismo na América Latina, talvez o mais importante desde José Carlos Mariátegui.

Curiosamente, a maioria das biografias sobre o Che recentemente publicadas não tratam deste aspecto essencial de sua personalidade. Até os autores simpáticos à sua figura não compreendem ou menosprezam sua obra marxista. Por exemplo, no belo livro de Paco Ignacio Taibo II [Ernesto Guevara, também conhecido como Che], os escritos de Che quando da discussão sobre a lei do valor são postos de lado como um “labirinto de citações” inspirado em um “marxismo bíblico”. O jornalista francês Pierre Kalfon considera o brilhante ensaio “O socialismo e o homem em Cuba” como “um amontoado de fórmulas” inspiradas por “um dogmatismo de outros tempos”, isto é, pelo “palavrório marxista tradicional”!

Ora, se se ignora ou se despreza o pensamento de Che, suas ideias, seus valores, sua teoria revolucionária, seu marxismo crítico, como compreender sua coerência de vida, as principais razões de suas atitudes, a inspiração política/moral de sua prática, o fogo sagrado que o movia?

Diferentemente da maioria dos dirigentes da Revolução Cubana, Ernesto Guevara já possuía uma formação marxista antes de aderir ao Movimento 26 de julho, no México, em 1955. Ele descobriu o marxismo não apenas lendo Marx – graças à biblioteca de sua companheira Hilda Gadea e de seu amigo mexicano Orfila Reynal – e Lenin, ou os romances de Nazim Hikmet, Miguel Ángel Asturias e Jorge Icaza, mas também por meio de sua experiência política na Guatemala, quando do golpe contra Arbenz, vítima da CIA, da United Fruit e da traição das forças armadas.

Ele não chegou ao marxismo pela própria experiência revolucionária, mas tratou de, prontamente, decifrá-la recorrendo a referências marxistas, e, dessa forma, foi o primeiro a captar plenamente o significado histórico-social da Revolução Cubana, proclamando, em julho de 1960, que ela “descobriu também, por seus próprios métodos, os caminhos demonstrados por Marx”[3]Porém, algum tempo antes, em abril de 1959, ele já previa o rumo que o processo cubano tomaria depois da queda da ditadura de Batista: trata-se – dizia Che em entrevista a um jornalista chinês – de “um desenvolvimento ininterrupto da revolução”, até abolir “a ordem social existente” e seus “fundamentos econômicos”.[4]

De 1959 até sua morte, o marxismo de Che evoluiu. Ele se distanciou cada vez mais das ilusões iniciais sobre o modelo soviético de socialismo e sobre o estilo soviético – isto é, stalinista – de marxismo. Percebe-se, cada vez mais explicitamente, sobretudo em seus escritos a partir de 1963, a busca de um modelo alternativo, a tentativa de formular outra via ao socialismo, distinta dos paradigmas oficiais do “socialismo realmente existente”. Seu assassinato pelos agentes da CIA e por seus lacaios bolivianos, em outubro de 1967, interrompe um processo de amadurecimento político e de desenvolvimento intelectual autônomo. Sua obra não é um sistema fechado, um modelo acabado que possui resposta a todas às perguntas. Sua reflexão ficou incompleta em várias questões, como, por exemplo, a democracia sob a planificação econômica e a luta contra a burocracia.

O marxismo de Che se distingue das variantes dominantes em sua época; é um marxismo antidogmático, ético, pluralista, humanista, revolucionário. Alguns exemplos nos permitem ilustrar estas características.

            Antidogmático: Marx, para Che, não era um papa ungido pelo dom da infalibilidade. Em suas “Notas para estudo da ideologia da Revolução Cubana” (1960), ele ressalta: mesmo sendo um gigante do pensamento, o autor d’O capital cometeu erros que podem e devem ser criticados. Por exemplo, no que toca à América Latina, sua interpretação de Bolívar ou a análise sobre o México que realiza junto com Engels, “em que admite determinadas teorias sobre raças ou nacionalidades que são hoje inadmissíveis”.[5]

Entretanto, os fenômenos de dogmatização burocrática do marxismo no século XX são mais graves que os equívocos de Marx; em várias oportunidades, Guevara se queixou da “escolástica que freou o desenvolvimento da filosofia marxista” – uma evidente referência ao stalinismo – e que impediu sistematicamente, inclusive, o estudo do período de construção do socialismo.[6]

Ético: A ação revolucionária é inseparável de certos valores éticos. Um dos exemplos é o trato aos prisioneiros da guerrilha: “A clemência mais absoluta o possível com os soldados que combatem cumprindo, ou que creem cumprir, seu dever militar (…) Os sobreviventes devem ser postos em liberdade. Os feridos devem receber cuidados utilizando todos os recursos disponíveis”.[7]Um incidente da batalha de Santa Clara ilustra o comportamento de Che: em resposta a um companheiro que propôs a execução de um tenente do exército, feito prisioneiro, diz Guevara: “Você acha que somos iguais a eles?”[8]

A construção do socialismo também é inseparável de determinados valores éticos, diferentemente do que advogam as concepções economicistas – de Stalin a Charles Bettelheim – que levam em conta apenas “o desenvolvimento das forças produtivas”. Em sua famosa entrevista ao jornalista Jean Daniel (julho de 1963), Che defendia, no que já se constituía uma crítica implícita ao “socialismo real”, que: “O socialismo econômico sem a moral comunista não me interessa. Lutamos contra a miséria, mas ao mesmo tempo contra a alienação (…). Se o comunismo desconsidera os fatos da consciência, poderá ser um método de distribuição, mas não se constitui como uma moral revolucionária.[9]

Pluralista: Apesar de Che não ter formulado uma concepção acabada da democracia socialista, ele defendia a liberdade de debate no campo revolucionário e o respeito à pluralidade de opiniões. O exemplo mais marcante é sua resposta – em um informe de 1964 a seus companheiros do Ministério da Indústria – à crítica de “trotskismo” feita a ele por alguns soviéticos: “Com relação a isso, creio que ou temos a capacidade de destruir com argumentos a opinião contrária ou devemos deixá-la se expressar (… ). Não se pode destruir uma opinião por meio da força, pois isso interrompe todo livre desenvolvimento da inteligência. Além disso, há uma série de aspectos do pensamento de Trotsky que pode ser levada em conta, ainda que, como acredito, ele tenha se equivocado em seus conceitos fundamentais e sua ação posterior tenha sido errônea (…)”[10]

            Revolucionário: Na América latina, durante anos e décadas, o marxismo serviu como justificativa a uma política reformista de subordinação do movimento operário à aliança com uma suposta “burguesia nacional”, com vistas a uma suposta “revolução democrática, nacional e antifeudal” ([Victorio] Codovilla, para mencionar apenas um nome simbólico de todo um sistema político de corte stalinista). Em sua “Mensagem à tricontinental” (1966), Guevara cortou o nó górdio que atava pés e mãos dos explorados: “As burguesias autóctones perderam toda sua capacidade de oposição ao imperialismo – se alguma vez a tiveram – e constituem apenas sua retaguarda. Não há mais mudanças a serem feitas: ou revolução socialista ou a caricatura de revolução”[11]

Todos os escritos e discursos marxistas de Che, de 1959 até sua morte, seja sobre a realidade latino-americana, sobre a guerra de guerrilhas, sobre a luta internacional contra o imperialismo, sobre os problemas econômicos de Cuba, possuem um objetivo central, concreto e urgente: a transformação revolucionária da sociedade.

Insistiu-se muito sobre a teoria do foco guerrilheiro nos escritos de Che. Mas ele sabia que a revolução social é uma tarefa não apenas de uma – indispensável – vanguarda, mas das grandes maiorias: são “as massas (as que) fazem a história como um conjunto consciente de indivíduos que lutam por uma mesma causa (…) que lutam para sair do reino da necessidade e passar ao reino da liberdade”.[12]

Humanista: A leitura de Marx feita por Che é totalmente distinta da vulgata estruturalista, “anti-humanista teórica”, althusseriana, que tanto se difundiu na América Latina nos anos 1960-1970. Referindo-se ao Capital, ele escreve: “O peso deste monumento da inteligência humana é tal que nos fez, frequentemente, esquecer o caráter humanista (no melhor sentido da palavra) de suas inquietudes.

A crítica ao capitalismo – sociedade na qual “o homem é o lobo do homem” –, a reflexão sobre a transição ao socialismo, a utopia comunista de um homem novo: todos os temas centrais da obra marxista de Che têm fundamento no humanismo revolucionário. Sua formulação mais profunda, mais original e mais pessoal está no ensaio “O socialismo e o homem em Cuba” (1965): “Deixe-me dizer, correndo o risco de parecer ridículo, que o verdadeiro revolucionário é guiado por grandes sentimentos de amor”. Sem o amor aos povos, o amor à humanidade, sem estes sentimentos generosos “é impossível pensar num revolucionário autêntico”.[13]

A expressão concreta, prática, ativa do humanismo revolucionário é o internacionalismo. Em uma conversa com jovens comunistas, em 1962, Guevara insistia que o revolucionário deve “sempre se colocar os grandes problemas da humanidade como problemas próprios”, isto é, “deve se sentir angustiado quando, algum canto do mundo, um homem é assassinado, e até o ponto de se sentir entusiasmado quando, em algum canto do mundo, se levanta uma nova bandeira de liberdade”.[14] Para além de seus erros táticos, ou mesmo estratégicos, o compromisso pessoal de Che com a revolução no Congo e na Bolívia, arriscando sua vida, é a tradução destas palavras em atos.

O mundo – e a América Latina – passaram por muitas transformações nos últimos 30 anos. Não se trata de olhar para trás e procurar, nos escritos de Che, a resposta a todos nossos problemas atuais. Mas é fato que os povos continuam, hoje como ontem, sob a dominação do imperialismo; que o capitalismo, em sua forma neoliberal, continua produzindo os mesmos efeitos: injustiça social, opressão, desemprego, pobreza, mercantilização dos espíritos. O que é ainda pior: o capital financeiro multinacional nunca exerceu um poder tão aplastante, tão sombrio sobre todo o planeta. O capitalismo nunca conseguiu, como o faz agora, afogar todos os sentimentos humanos nas “águas glaciais do cálculo egoísta”. Por isso, necessitamos, hoje mais que nunca, do marxismo do Che, de um marxismo antidogmático, ético, pluralista, revolucionário, humanista.

No século XXI, quando os ideólogos neoliberais – que ocupam hoje a cena política e cultural – já estiverem esquecidos, as novas gerações ainda se recordarão do Che, e sua estrela continuará iluminando a luta da humanidade por sua emancipação.


[1]Tradução de Miguel Yoshida.

[2]Diretor de pesquisas no CNRS (Centre National de la Recherche Scientifique) e dirige um seminário na École des Hautes Études en Sciences Sociales e autor de O pensamento de Che Guevara, Editora Expressão Popular.

[3]Discurso de 28 de julho de 1960, “Para o primeiro Congresso Latino-americano de Juventudes”, in: Ernesto Che Guevara, Obras 1957-1967, La Habana: Casa de las Americas, 1970, v. 2, p. 392. Daqui em diante esta edição será citada como Casa.

[4]E. Guevara, Selected Works, Cambridge, MIT Press, 1970, p. 372.

[5]“Notas para estudo da ideologia da Revolução Cubana” in: Che Guevara – Política, São Paulo: Expressão Popular, 2011, p. 115.

[6]Casa, v. 2, p. 190. Em um discurso, em abril de 1962, sobre Anibal Escalante e sua tentativa de stalinização do Partido Revolucionário Cubano, Guevara destaca a íntima relação entre alienação das massas, burocratismo, sectarismo e dogmatismo. In: Ernesto Guevara, Obra revolucionaria, Mexico: Era, 1967, p. 333.

[7]Che Guevara, “La guerra de guerrillas”, Casa, v. 1, p. 46.

[8]Citado en Paco Ignacio Taibo II, Ernesto Guevara,também conhecido como Che, São Paulo: Expressão Popular, 2011, p. 261.

[9]In: L’Express, 25 de julho de 1963, p. 9.

[10]Che Guevara, “Il piano i gli uomini”, Il Manifesto n. 7, dezembro de 1969, p. 37.

[11]Casav. 2, p. 589. É impressionante o paralelo com a tese de José Carlos Mariátegui, em 1929: “À América do Norte plutocrática, imperialista só se pode opor de maneira eficaz uma América Latina ou ibérica socialista. (…) O destino destes países, dentro da ordem capitalista, é o de ser simplesmente colônias”. (J. C. Mariátegui, El proletariado y su organizacion, Mexico, Grijalbo, 1970, p. 119-121.

[12]Casa, v. 2, p. 249, 375, 383.

[13]“O socialismo e o homem em Cuba”, in: Che Guevara – política, ed. cit., p. 265.

[14]“O que deve ser um jovem comunista”, in: ed. cit, p. 279, 277.

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