Manifesto pela permanência da UNIFESP nas periferias da Região Metropolitana de São Paulo

Ao longo de séculos, a instituição universitária foi-se configurando como lugar especial de conhecimento. Ambiente de quem mergulha na cultura e a reelabora, de quem usa da razão na produção sistemática de conhecimento. Assim se foi definindo a missão combinada de ensino e pesquisa. Missão que não pode ser realizada sem atitude crítica e seu exercício.

Na história do Brasil atitude crítica e criativa teve momento especial no movimento cultural e intelectual denominado Modernismo no qual pessoas envolvidas buscavam revelar o típico da identidade do brasileiro, lançando mão da história da formação da sociedade brasileira, desde a colonização. Tal esforço se fez para que pudéssemos olhar para o que estava acontecendo de moderno no Brasil, no esforço de superar o atraso na qual ainda mergulhávamos, demarcado pelo viés autoritário e monolítico  do nosso espaço social.

É neste contexto que é criada a Escola Paulista de Medicina embrião da UNIFESP, para ficarmos na linguagem clínica. Inicialmente privada a escola vai se tornando pública, vai se tornando universidade federal. É nesse processo em que  é feita, desfeita e refeita universidade federal.

A UNIFESP vai também fazendo parte dos anseios de modernização efetiva do Brasil, presentes nos movimentos sociais por educação pública e de qualidade para todos. São esses movimentos sociais que irão afirmar seu caráter público e, a partir de tal afirmação, exigir que a presença da diversidade de estudantes que comporta o Brasil, fosse garantida em seus bancos. Do mesmo modo se fez com a expansão do número de cursos que passou a oferecer.

Obviamente, tal  mobilização faz parte de um processo mais amplo de democratização do páis  e, por conseguinte, da educação pública em todos os níveis. Mas sabemos que o processo de democratização é ele próprio resultado da luta social e não geração espontânea da classe política.

Atualmente os movimentos sociais que atuam nas periferias da grande São Paulo foram surpreendidos com manifestações públicas de alguns professores da UNIFESP, campus na cidade de Guarulhos nas quais emergem acusações ao caráter periférico do referido campus e de seu entorno, como elementos degeneradores da universidade.

Vimos a público afirmar que não concordamos, nem poderíamos, dada a nossa história de luta por educação de qualidade e para todos, com o diagnóstico de parte do corpo docente da referida universidade no qual são arolados os motivos que levariam à uma crise no referido campus.

Fazer conexão entre a presença física do campus na centralidade territorial e cultural da metrópole paulistana e os supostos benefícios para a formação acadêmica, que o mesmo geraria para a formação dos graduandos, parece-nos um simplismo preconceituoso. Na verdade reconhecemos que estamos na metrópole central do país e que, mesmo demarcada por desigualdades de todos os tipos, a localização do campus em sua franja metropolitana não pode ser explicação razoável para os problemas que a universidade enfrenta.

Afirmamos que os problemas existentes no campus precisam de soluções que busquem a sua permanência na cidade de Guarulhos e não como um artifício elaborado para desfazer-se dos laços históricos que fizeram a UNIFESP assumir a modernidade como expansão democrática. Esta inclui, necessariamente, a presença em territórios desfavoráveis e diferenciados.

Rejeitamos qualquer esforço para saída do campus UNIFESP na Cidade de Guarulhos, mas não nos iludimos de que a própria UNIFESP venha a substituir as funções indispensáveis dos demais órgãos públicos. Muito diferente disso, a permanência e a atuação da universidade são uma necessidade para que o Estado cumpra um dos seus deveres com a educação (artigo 208, V), pela garantia de acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística.

Porém, a principal contribuição da UNIFESP será na realização dos objetivos da educação consagrados na Constituição  da República (artigo 205): pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. Essa contribuição só será possível se  –  abandonando inspirações elitistas–  ela abranger não só seus alunos, mas o conjunto humano que vive na metrópole, especialmente em suas periferias. E apenas se concretizar a sua natureza como universidade na pesquisa, no ensino e na extensão, em ações nas quais se pratique a liberdade porque nelas se exerça o espírito crítico.

 

Assinam este manifesto:

Fórum de Educação da Zona Leste – Cidade de São Paulo.

MOVIMENTO NOSSA ZONA LESTE

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