Folha: Celebração de Clube Militar, mortes no Araguaia e presos na Argentina

Clube Militar celebra golpe com críticas à Comissão da Verdade

O Clube Militar realizou na tarde desta sexta-feira o painel “A Revolução de 31 de Março de 1964 – Com os Olhos no Futuro”, com a participação do general da reserva Sergio de Avellar Coutinho, do advogado Ives Gandra Martins e da ex-deputada Sandra Cavalcanti, com a mediação do economista Rodrigo Constantino.

Argentina já tem 486 presos da ditadura militar

Os julgamentos dos crimes cometidos na última ditadura militar da Argentina (1976-83) já levaram à prisão 486 ex-militares envolvidos nas ações de terrorismo do Estado, que deixaram mais de 30 mil pessoas mortas ou desaparecidas, segundo entidades de direitos humanos.

Marinha ordenou a morte de militantes no Araguaia em 1972

Documentos escritos pelo Comando da Marinha revelam que havia a determinação prévia de matar os integrantes da Guerrilha do Araguaia, e não apenas derrotar o maior foco da luta armada contra a ditadura militar.

Clube Militar celebra golpe com críticas à Comissão da Verdade

O Clube Militar realizou na tarde desta sexta-feira o painel “A Revolução de 31 de Março de 1964 – Com os Olhos no Futuro”, com a participação do general da reserva Sergio de Avellar Coutinho, do advogado Ives Gandra Martins e da ex-deputada Sandra Cavalcanti, com a mediação do economista Rodrigo Constantino.

No debate, acompanhado por cerca de 200 pessoas, na sede do Clube Militar, do Centro do Rio, os participantes defenderam a necessidade do golpe em 1964 para frear o comunismo e criticaram a intenção de setores ligados ao governo federal de criar uma comissão da verdade sobre a ditadura militar.

Vannuchi defende ‘aprovação rápida’ da Comissão da Verdade
Ministro diz que governo está unido sobre Comissão da Verdade
Ministro rebate Exército e diz que Comissão da Verdade é um ‘dever’
Em documento, Exército critica criação da Comissão da Verdade

Constantino começou o debate dizendo que ele é oportuno por acontecer num momento em que “coisas como a comissão da verdade e outras iniciativas, que querem tudo menos a verdade, pretendem reescrever a história sob um prisma falso e eivado de uma ideologia perversa”.

“Eles não querem resgatar a verdade, porque a verdade deles não existe, é uma mentira. Memória histórica tem que ser resgatada por historiadores, com imparcialidade. Essa comissão da verdade é uma comissão da vingança”, disse Martins.

Ele afirmou que a verdadeira intenção por trás da comissão é revogar a Lei de Anistia, mas duvidou que a tentativa tenha chances de prosperar.

Já Cavalcanti e Coutinho disseram considerar que a democracia está atualmente ameaçada no país. “O Brasil vem mantendo a sua versão de democracia, não uma democracia de fato. Sub-repticiamente, nós vivemos hoje sob uma tirania. Está em pleno andamento hoje uma república sindicalista”, disse a ex-deputada.

Já para o general, “a revolução se encerrou em 1985, mas a perseverança dos comunistas, é preciso reconhecer, não acabou e continua até hoje”.

Ele denunciou uma tentativa deliberada de solapar as Forças Armadas –com restrições orçamentárias, transferência de unidades e iniciativas revanchistas– para eliminar barreiras a uma futura tentativa de instalar um regime totalitário de viés comunista. “A democracia é usada para a destruição da própria democracia”, lamentou.

Nenhum dos debatedores chegou a propor uma nova revolução, mas Coutinho lamentou que não exista hoje uma figura e um partido para mobilizar os conservadores como o jornalista e governador da Guanabara Carlos Lacerda (1914-1977) e a UDN.

Menos radical que os demais debatedores, Martins disse que a presidente Dilma Rousseff –qualificada por Cavalcanti como “farinha do mesmo saco” de João Goulart, o presidente derrubado pelo golpe– dá mostras de que não pretende ceder ao “núcleo pequeno, mas ainda forte, de radicais do governo” no revisionismo do passado. “Apesar de ter sido guerrilheira, ela está muito mais preocupada em governar eliminando arestas do que criando novas arestas”, afirmou.

Marinha ordenou a morte de militantes no Araguaia em 1972

Documentos escritos pelo Comando da Marinha revelam que havia a determinação prévia de matar os integrantes da Guerrilha do Araguaia, e não apenas derrotar o maior foco da luta armada contra a ditadura militar.

Os papéis, de setembro de 1972, relatam a preparação da Operação Papagaio, uma das principais ofensivas das Forças Armadas contra o grupo criado pelo PC do B entre Pará, Maranhão e a região norte de Goiás, que hoje é o Estado do Tocantins.

A documentação a que a Folha teve acesso faz parte do acervo da Câmara dos Deputados. Era confidencial até 2010, mas foi liberado para consulta pública.

“A FFE [Força dos Fuzileiros da Esquadra] empenhará um grupamento operativo na região entre Marabá e Araguaína para, em ação conjunta com as demais forças amigas, eliminar os terroristas que atuam naquela região”, afirmam duas “diretivas de planejamento”.

Uma delas é assinada por Edmundo Drummond Bittencourt, comandante-geral do Corpo de Fuzileiros Navais. A outra foi escrita pelo contra-almirante Paulo Gonçalves Paiva. Nas duas, a ordem de “eliminar” os guerrilheiros surge no item “conceito das operações”.

Os textos também dizem que seriam feitas ações para “impedir os terroristas que atuam na margem daquele rio de transporem-no para a margem leste, eliminando-os ou aprisionando-os”.

A oposição entre “eliminar” e “aprisionar” confirma que o primeiro se refere à morte dos militantes, disse o historiador Jean Rodrigues Sales, autor de “A Luta Armada Contra a Ditadura Militar” (ed. Perseu Abramo).

“No episódio de repressão à militância armada, a política deliberada de assassinatos jamais foi admitida de forma oficial”, disse Sales.

Segundo Criméia Schmidt de Almeida, ex-guerrilheira e estudiosa do conflito, “realmente [ainda] não havia registro disso [determinação prévia para matar]”.

Relatório do Exército de 1974, quando quase todos os militantes do PC do B na região haviam sido mortos, fala na “eliminação” das “forças guerrilheiras”, mas não de seus integrantes.

Para Taís Morais, coautora com Eumano Silva de “Operação Araguaia” (Geração Editorial), “militar não escreve ordem que não deve ser cumprida”.

As “diretivas” corroboram relatos de testemunhas do conflito, segundo as quais, nos anos seguintes, comunistas foram mortos mesmo depois de serem presos.

Em um dos papéis a que a Folha teve acesso, a Marinha fala em oito guerrilheiros mortos “em combate” durante a Operação Papagaio –argumento que sempre foi usado pelas Forças Armadas para justificar mortes de resistentes na região.

Ainda não foi produzida uma narrativa oficial sobre a luta armada durante a ditadura –um dos objetivos da Comissão da Verdade, que o governo quer instituir.

Procurado na terça-feira, o Ministério da Defesa afirmou que, por não ter tempo de encontrar os documentos, não os comentaria.

Argentina já tem 486 presos da ditadura militar

Os julgamentos dos crimes cometidos na última ditadura militar da Argentina (1976-83) já levaram à prisão 486 ex-militares envolvidos nas ações de terrorismo do Estado, que deixaram mais de 30 mil pessoas mortas ou desaparecidas, segundo entidades de direitos humanos.

Até agora, conforme o Ministério Público Federal, são 200 as condenações de ex-integrantes do Exército, Marinha, Aeronáutica, polícias, forças nacionais de segurança e civis envolvidos na repressão -40 casos foram transitados em julgado, sem direito a recursos.

Após 35 anos do início da última ditadura (lembrados no último dia 24, data do golpe em março de 76), os juízos pelos crimes contra a humanidade na Argentina chegaram a um patamar único.

Não há paralelo -na América Latina, no Leste Europeu ou na África- de país que viveu situação de terrorismo estatal e depois conseguiu julgar e prender seus algozes com suas próprias leis e nos tribunais do Estado, sem a necessidade de tribunais especiais ou de exceção.

Alejandro Pagni/AFP
Manifestantes seguram cartaz com fotos de desaparecidos na ditadura militar, em Buenos Aires
Manifestantes seguram cartaz com fotos de desaparecidos na ditadura militar, em Buenos Aires

Um dos casos mais emblemáticos é a prisão de dois dos três presidentes-militares da junta que governou a Argentina durante a ditadura.

Jorge Videla, artífice do golpe, está num cárcere em Buenos Aires. Aos 85 anos, foi condenado à prisão perpétua pelos crimes de sequestro e tortura e ainda está implicado em outros processos, como o sequestro de bebês de militantes de esquerda, que começou há pouco a ser analisado judicialmente.

Outro ex-presidente, Reynaldo Bignone, cumpre uma pena de 25 anos de prisão pelos mesmos crimes.

Após anular as leis de indulto e ponto final, que travavam os julgamentos, o país retomou os juízos em todo o país a partir de 2006.

Até o mês passado, eram 820 pessoas processadas (em mais de mil ações) pelos crimes de tortura, sequestros e homicídios na ditadura.

O responsável por mudar a legislação foi o governo Néstor Kirchner (2003-07), e em datas distintas a decisão foi referendada pelo Congresso e pela Suprema Corte argentina. Os juízos são aprovados pela maioria da sociedade argentina, segundo pesquisas.

JUÍZOS

Quando a ditadura acabou, em 1983, Jorge Auat foi um dos primeiros a apresentar ação contra a Junta Militar. Hoje o promotor coordena, numa sala do Ministério Público Federal no centro de Buenos Aires, todas as ações contra os crimes no período.

“O desafio é juntar os processos, encontrando um nexo entre os crimes, e fazer um julgamento rápido, já que a maioria dos réus é de idade”, disse Auat à Folha.

Um dos casos que começará a ser julgado no meio deste ano é o processo sobre a Operação Condor, como é conhecido o esforço integrado entre países latino-americanos para caçar opositores em diferentes territórios da região.

Anúncios

Um comentário sobre “Folha: Celebração de Clube Militar, mortes no Araguaia e presos na Argentina

  1. Olá, o oocorrido, não será um mero isolamento isso vem ocorrendo sempre, pessoas desaparecem crianças, adolescentes e idosos, ninguém faz nada, já existe uma corrente imensa de pessoas ligadas esses movimentos, para quê isto!!!!!!!! Temos é que acabar e dar a punição a quem é de direito. Olha, essa invesitigação vem há anos sendo investigada é cadê os culpados, estão esperadno eles morrem todos, é porque eles já são bem velhinhos coitados, risos… precisam do apoio do Governo, quem sabe esperando uma casa de apoio ao ancião para morrem sossegados.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s