30/10/1979 – Santo Dias Assassinado na porta de fábrica

CPDOC do Jornal do Brasil

Jornal do Brasil: Quarta-feira, 31 de outubro de 1979 - página 8

Santo Dias foi assassinado pelas costas por um PM durante uma manifestação de 50 pessoas em frente da fábrica de TV Sylvânia, na Zona Sul de São Paulo. A morte do operário mudou os rumos da greve de São Paulo, Osasco e Guarulhos, desencadeada dois dias antes do crime, e acelerou o fim do regime militar.
A história de Santo Dias se cruza com a de vários líderes que lutaram pela redemocratização do país. Em plena ditadura, a opinião pública não se calou. O deputado Ulysses Guimarães e o senador Franco Montoro, ambos do MDB, protestaram.
A Polícia recolheu rapidamente o corpo e levou outros três feridos graves para o hospital, mas a notícia da morte de Santo correu de boca em boca. O crime aconteceu uma hora antes da realização da assembléia do sindicato em que os operários estavam dispostos a aceitar a proposta de reajuste da Delegacia Regional Trabalhista e acabar com a paralisação. O assassinato causou uma reviravolta, e cerca de 6 mil metalúrgicos de São Paulo e Guarulhos decidiram continuar a greve. Só Osasco assinou a conciliação.
O secretário de Segurança Pública, desembargador Octávio Gonzaga Júnior disse que Santo foi morto em um confronto onde três policiais ficaram feridos. O secretário divulgou o nome dos PMs agredidos, mas eles não foram aparesentados à imprensa. A versão da polícia foi desmentida por testemunhas. O PM Herculano Leonel acusado de atirar em Santo foi condenado a seis anos de prisão em 1982, mas recorreu e o processo foi arquivado por falta de provas.
O corpo do operário só foi liberado depois da interferência de outros sindicalistas e de parlamentares. Cerca de 10 mil acompanharam o cortejo.Entre eles estavam opositores da ditadura, como Hélio Bicudo, Luiz Eduardo Greenhalgh, Perseu Abramo, além de dois políticos que ainda iniciavam sua trajetória: Fernando Henrique Cardoso, e Luiz Inácio Lula da Silva, que era presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernado do Campo. Dos prédios caíam papeis picados, um sinal silencioso de solideariedade. Santo Dias tornou-se um dos últimos mártires da ditadura.
Defesa dos Direitos Humanos
Três meses depois da morte do operário, o Partido dos Trabalhadores (PT) seria fundado. Por iniciativa de dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo de São Paulo naquela época, o líder metalúrgico ligado à Pastoral Operária inspirou a criação do Centro Dias de Defesa dos Direitos Humanos da Arquidiocese de São Paulo, para a defesa das vítimas da violência policial. Santo era amigo pessoal de dom Paulo Evaristo Arns. O arcebispo comentou sobre a morte do operário, na edição do Jornal do Brasil de 31 de outubro de 1979:
– Foi um acontecimento dos mais tristes a que assisti. Um operário defendeu com o próprio corpo seus ideais e seus companheiros.

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