Revolução Mexicana: 100 anos da heroica guerra camponesa por terra e liberdade

Há cem anos teria início um dos processos revolucionários mais importantes da América Latina. A Revolução Mexicana tem sido alvo de inúmeros mitos e estigmas, em geral associados à própria imagem do país, aos seus costumes e à luta de seu povo por liberdade e justiça.

(Felipe Deveza)

“A ocupação da Cidade do México pelos exércitos camponeses é um dos episódios mais belos e comovedores de toda a Revolução Mexicana, expressão precoce, violenta e ordenada da potência das massas que têm deixado até hoje sua marca no país, e um dos alicerces históricos o­nde se afirmam, sem que reveses, traições, nem contrastes possam remover o orgulho e a altivez do campesinato mexicano .”
(GILLY, 1980, p. 141)

A Revolução

Revolucao Mexicana

por Camila Maný

A Revolução Mexicana, iniciada em 1910, eclode por uma soma de elementos políticos e sociais que se opunham ao governo do ditador Porfírio Diaz (mandato de 1876 a 1911), caracterizado pelo desenvolvimento do capitalismo mexicano, com apoio de capitais e empresas estrangeiras no controle da exploração mineral, petrolífera, dos bancos, das indústrias e dos comércios; e de caráter repressivo às camadas populares. Dentre os aliados do mandato de Diaz estavam também os latifundiários, que enfatizou a queda dos ejidos – terras comunitárias de origem indígena, oferecendo assim o aumento de mecanismos para a uma maior concentração de renda fundiária.

A amplitude da Revolução Mexicana indica também a variedade de ações e representações que esta teve. Quando analisado do ponto de vista institucional, a revolução representou o fim da ditadura de Porfírio Diaz e a ascensão do  latifundiário e organizador do movimento “anti-reeleicionista”, Francisco Madero. No âmbito dos movimentos populares, a Revolução Mexicana foi marco das lutas camponesas e indígenas – setores que viviam em extrema pobreza, exploração e opressão – por melhores condições de vida, sendo, ao sul, liderados por Emiliano Zapata, e ao norte por Pancho Villa.

O caráter popular opôs-se também ao governo de Madero, sendo elaborado por Zapata e os demais camponeses o Plano Ayala, que propunha um processo de reforma agrária que fosse controlada pelos camponeses, com a reestruturação dos ejidos e a desapropriação das concentrações de terras dos latifundiários. A política governamental de Francisco Madero , que não agradava plenamente nem Porfiristas nem os camponeses trouxe dúvidas as decisões que tomaria, sendo que quanto mais se aproximava de acordos que pautava a implantação da reforma agrária, mais os latifundiários o pressionavam, sendo assassinado por estes últimos em 1913.

Após este fato, houve a ascensão do general Vitoriano Huerta, apoiado pelos porfiristas. A entrada de Huerta no governo fez com que os movimentos populares aumentassem e se fortalecessem ainda mais, propiciando a queda do mandato de Huerta e a entrada do constitucionalista Venustiano Carraza, em 1914, o qual consolidou a estrutura política através da nacionalização do petróleo, apesar das concessões estrangeiras, da elaboração de uma Assembléia Constituinte, a qual não contou com a participação camponesa, e de medidas de combate aos movimentos populares. Esta Constituição garantiu alguns direitos individuais e retomou o reconhecimento dos ejidos, ao mesmo tempo em que serviu para desmobilizar as forças camponesas e contribuir para o assassinato do líder Emiliano Zapata.


Pancho Villa, no Norte, e Emiliano Zapata, no Sul,  jamais aceitaram depor suas armas, unem seus exércitos populares e tomam a capital

Após a Revolução

por Felipe Deveza

Muitos se lembrarão dos desenhos animados, geralmente estadunidenses, onde aparecem caricatos mexicanos, com ar de bandoleiros, bandidos exploradores ou arruaceiros. Quem não se lembra do Ligeirinho, do Panchito ou do burrico Babalu? Quantas vezes vemos nos diversos meios de comunicação referências debochadas aos cantores populares — os mariachis — ou mesmo algum tipo de ridicularização de outro costume mexicano, como às tortillas ou ao sombreiro? Ao fim temos uma equivocada impressão sobre a cultura mexicana, impressão que na maioria das vezes se estende a História de luta do povo mexicano.

Especificamente sobre a Revolução Mexicana existe uma imagem estigmatizada, relacionando-a a uma bárbara violência, ao atraso e a uma “ignorância camponesa”, muitas vezes apresentando Zapata e Pancho Villa como ladrões, bêbados analfabetos, delinquentes, arruaceiros ou simplesmente “bandidos sociais” em uma acepção pretensamente mais intelectualizada.

Como grande parte das informações que recebemos sobre a América Latina pela imprensa vem filtrada pelas grandes corporações imperialistas de comunicação, não é de se estranhar que todas as imagens que temos do México estejam carregadas de inúmeros preconceitos.

A mentalidade colonizada de parte da intelectualidade brasileira sempre privilegiou os acontecimentos europeus. Geralmente a história que conhecemos nos livros escolares está tão desinteressada pela história dos outros países que nos rodeiam que parecem mirar seus olhos na Europa e nos USA dando as costas para a América Latina.

Afora toda a propaganda e preconceito colonialista, a Revolução Mexicana foi um daqueles momentos que revelam muitas questões de fundo para a história. De início poderíamos destacar o papel dos camponeses nas revoluções da América Latina, seu potencial revolucionário e os limites da burguesia no continente. Por outro lado, revela fatos importantes sobre a opressão imperialista no século XX. Por ser o país latino-americano de maior fronteira com os USA, sofreu desde o princípio de sua história o peso do imperialismo ianque nos destinos de sua política nacional.

Veja mais no site da Nova Democracia

“Muito ganharíamos, muito ganharia a humanidade e a justiça, se todos os povos da América e todas as nações da velha Europa compreendessem que a causa do México Revolucionário e a causa da Rússia são e representam a causa da humanidade, o interesse supremo de todos os povos oprimidos. (…) Aqui como lá, existem grandes senhores, desumanos, gananciosos e cruéis que vêm explorando de pais a filhos até a tortura as grandes massas camponesas. E aqui como lá os homens escravizados, os homens de consciência adormecida, começam a despertar, a sacudir-se, a agitar-se, a castigar. (…) Não é de se estranhar, pelo mesmo, que o proletariado mundial aplauda e admire a Revolução Russa, do mesmo modo que outorgará toda a sua adesão, sua simpatia e seu apoio a esta Revolução Mexicana, ao dar-se cabal conta de seus fins”

(Carta de Emiliano Zapata ao General Genaro Amescua, Tlaltizapán, Morelos, em 14 de fevereiro de 1918).

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Um comentário sobre “Revolução Mexicana: 100 anos da heroica guerra camponesa por terra e liberdade

  1. Realmente é estarrecedor como nós, especificamente os brasileiros não nos interessamos pela a história que esta tão próxima de nós.
    E a tendência é piorar se não procurarmos entender e absorver o que é realmente uma revolução, e quem faz a revolução. Para mim, não sabemos nem o que é, porque sempre demos, damos as coisas de mão beijada, sem lutar pelos nossos direitos…
    Chega de manipulação temos que altivar as nossas vozes e dizer: Não somos marionetes.

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