Assistência Estudantil na Unifesp

O campus de Guarulhos da UNIFESP começou seu funcionamento em 2007, quando havia apenas quatro de seus atuais seis cursos. Na época, sofremos muito com a ausência total de assistência estudantil de todas as formas, pois não havia nenhuma. A biblioteca, que atualmente possui milhares de livros à disposição de todos, teve seu acervo liberado apenas com cerca de quatro meses do início do ano letivo. Havia, para comermos, uma cantina de gosto e preço duvidoso (mesmo que hoje em dia alguns que a conheceram ainda sejam saudosos, em virtude da atual…), mas nada de restaurante universitário com refeições subsidiadas; os computadores demoraram várias semanas para ficar disponíveis, mas chegaram e são muito utilizados pelos alunos e a cota para impressões, apesar de recente, é bem útil também.

Para chegar até aqui tínhamos que pegar os ônibus mais caros que a maioria absoluta de nós já havia pagado até então e muitos, pela primeira vez, descobriram o que é utilizar coletivos em horário de pico para um local tão afastado do que a maioria de nós morava. Atualmente, já temos diversos coletivos fretados, uma linha que vem até a porta do campus e outra em fase de possível implantação, vinda do Metrô Itaquera.

A necessidade de maiores espaços para receber alunos/as novos e promover maior integração entre esses e os veteranos é um dos fatores da expansão física do campus; o Centro Acadêmico e a construção do “campus de baixo” é uma expressão disso. Um último destaque que fazemos nesse rápido retrospecto é o fato de que não havia veteranos para nos indicar ou nos orientar em nada, portanto tivemos uma dificuldade maior para nos localizar e compreender as mais diversas facetas que uma universidade é capaz de apresentar; contudo não é o caso dos calouros atuais, pois três anos de veteranos os antecedem e, de alguma forma, podem auxiliá-los.

Antes, contudo, que algum/a incauto/a possa pensar que esse pequeno texto seja uma ode à UNIFESP, já avisamos que o objetivo é justamente o contrário. Pretende-se, depois de chamar a atenção, apresentar aos calouros uma visão de que falta (e muito) para que esse campus possa realmente estar “nos conformes” e partimos do princípio de que toda a rede pública universitária é deficiente estruturalmente. Para quem quiser um referencial mais direto, procure saber acerca da Universidade Federal de Rondônia e sua precariedade de condições de manutenção dos alunos em suas dependências. A UNIFESP, guardadas as devidas proporções, sofre da mesma deficiência e isso se deve ao mau planejamento e à ação eleitoreira do governo federal, dentro da encenação do REUNI, na qual está havendo uma expansão a ferro e fogo, ou seja, nas condições que puderem ser feitas, desajeitada e irresponsavelmente em alguns casos.

A entrega da construção do “campus de baixo” está atrasada, o que nos fará ter vários dias de aulas “magnas”, em uma clara improvisação. A biblioteca ainda é deficiente em quantidade de materiais, em sua localização e em seu tamanho. O restaurante universitário (RU) está em um “prédio” que parece um galpão de materiais de construção e não aceita o cartão previsto no tardio auxílio alimentação. Não tivemos por parte da Diretoria uma negociação mais expressiva com a EMTU e a Guarupas sobre a disponibilização de mais coletivos nos horários próximos da entrada e saída das aulas, visando aliviar aos moradores do bairro a nossa presença nos transportes nestes horários, no qual somos apenas mais pessoas competindo por espaço no já precário transporte público que passa por aqui.

Sobre o auxílio estudantil, especificamente, ressaltamos que existem três tipos: alimentação, transporte e moradia. O primeiro vem na forma de um cartão de uma empresa que não é aceito na maioria dos estabelecimentos comerciais (e, como já dito, não é aceito no RU!); o segundo, que se saiba, não apresentou problemas até agora; já o terceiro é na forma de um pagamento mensal em conta bancária, em um valor pouco condizente com as necessidades reais de moradia. E mais, há um processo bem estranho nos requisitos para o acesso dos estudantes a tais auxílios, com caráter eliminatório: quem tiver reprovação não pode recebê-los…

Desde 2007, com a primeira turma dos cursos, alguns colegas foram obrigados a abandonar a UNIFESP ou pelo menos trancar matérias por falta absoluta de condições de continuar a custear transporte, alimentação e moradia. Afinal, por que o fato de que algum/a aluno/a ter reprovações o/a impede de acessar o programa? Por que não se considera que a pessoa pode ter reprovação pelo fato de não poder comparecer regularmente ao campus? Isso é realidade, não especulação!

Outro fator que deve ser abordado é sobre a ausência total de moradia estudantil e, até onde se sabe, não há nenhum plano para a implementação desse importante fator de permanência dos estudantes aqui. A reitoria/diretoria acadêmica é esquiva quanto a esse assunto, apenas dando combustível a especulações, de forma que uma informação recente sugere que todas as universidades federais pelo país não têm previsto moradia estudantil. Outra especulação é de que a prefeitura de Guarulhos é quem estimulará particulares para a construção de imóveis próximos ao campus, oferecendo-os aos alunos e promovendo, nesse caso, uma clara especulação imobiliária na região, reforçando a exploração dos aluguéis para os estudantes e demais moradores do bairro Pimentas, oferecendo subsídios aos “profetas sociológicos” do neoliberalismo (os quais a UNIFESP não está isenta, acreditem) que se regozijam com a mal utilizada e irresponsável idéia de que universidade implantada em bairro periférico promove o bem estar social e econômico deste, quase analogamente a uma “campanha civilizadora”. O valor do auxílio moradia apresenta uma sádica semelhança (e que nos faz pensar sobre seus propósitos): é o mesmo oferecido pela coalizão Serra x Kassab para os moradores expulsos de suas casas pelo represamento proposital das águas do Tietê e para os vitimados pelas enchentes em São Paulo.

Em suma, podemos dizer que se chamarmos o conjunto transporte/alimentação/moradia, em seus moldes atuais, de auxílio estudantil, sim, ele existe. Todavia, não é preciso ser nenhum especialista para dizer que é insuficiente e não corresponde às demandas dos estudantes, de forma a satisfazer suas reais necessidades, com especial crítica à empresa contratada para o auxílio alimentação e o valor do auxílio moradia, pois, no primeiro caso, o cartão é aceito em poucos lugares (comparando com outras empresas que oferecem o mesmo serviço); no segundo, o valor é baixo, inclusive considerando o pequeno número de aluno/as que o obtém. Completando o quadro, temos um processo seletivo defasado, no qual há um corte de cunho perversamente meritocrático, da mesma natureza que o vestibular, condenando-nos a um gargalo socioeconômico disfarçado de “esforço acadêmico”.

Texto de Juliano  Carlos Bilda, estudante do 4º ano de História da Unifesp

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